Com a química disponível, nasci ruidosa e vermelha, fumegante, e meu
desenvolvimento foi lento e de grandes alterações. Crescer, não cresci
e, logo que apareci, tornei-me autossuficiente, sem pai ou mãe para me
dar apoio, contaminando o espaço com a força da minha presença.
Lembro de idos tempos, quando a fúria que brotava da minha alma me
isolava e me deixava infértil. Nada poderia se comparar com aquele mal
estar que minha condição gerava e não havia ser algum que sequer
imaginasse aparecer, embora eu tivesse sonhos de uma vida harmônica mas,
em vista de minhas condições, difícil de alcançar. Só quando melhorei meu
comportamento pude ter companhia, também furiosa e ameaçadora como eu
mesma no passado, o que me deixava com certo temor respeitoso.
Mas eu não merecia um fim de época tão inglório! Uma catástrofe, uma
catástrofe destruiu todos os meus companheiros nervosos e fiquei só com
baratas, formigas e outros ser de menor valor. Nada daquelas brigas
horrorosas, com sangue esguichando de gargantas que eu gostava tanto
de ver entre os grande vertebrados!
O tempo passou e minha alma, em turbilhões menos sufocantes, proporcionou
novos aparecimentos. Plantei pomares vastíssimos, semeei campos com flores
e desviei cursos de água para formar lagos, riachos, grandes rios e oceanos,
estudando com grande calma o melhor lugar para um novo paisagismo.
No decorrer desta era eu, muito feliz, ajudei novos amigos, surgidos nas
evoluções naturais, a desfrutarem de tudo o que eu poderia lhes dar!
Foi então que surgiu aquele homem. Alto, meio barbudo e de corpo bem
torneado.
Fiquei de olho nele e morri de ciúmes, quando apareceu uma mulher linda,
tirada de uma costela dele, e o tal ficou tão entusiasmado com sua
presença, que não ouvia e nem via mais nada à sua frente!
Foram anos de muito ciúmes, de muita raiva, finalizados por uma grande
explosão.
Havia demorado tanto para eu conseguir companhia humana, inteligente,
uma só, e agora, essa sirigaita aparecia roubando-o de mim e ainda pôs
os olhos na minha fruta predileta?! Indignada, pus os dois no inferno,
um lugar que eu bem conheço pois me faz lembrar meu passado efervescente.
Pensei que a situação estivesse resolvida, mas vieram outros Adões e
outras Evas.
Alguns grupos se formaram onde havia fartura de alimentos,
até estocar conseguiam, enquanto outros minguavam por causa do ambiente
em que surgiram.
Foi então que nasceu a ganância e vi novamente a fúria aparecer, agora,
na alma dos homens!
Fiz os mares invadirem as terras e secas terríveis aparecerem, mas nada
os fez mudar. Apelei para o aparecimento de sábios. Nada!
Novamente sangue esguichava de espadas e guilhotinas.
Puxa! O que foi que fiz? Como pude dar tanto e ter um retorno desses?
Recentemente, esse tal ser inteligente que me habita, descobriu que podia melhorar
as máquinas toscas anteriores e, com os recursos que eu proporcionei durante toda
essa minha evolução, começou uma grande destruição!
Vi a maldade, a luxúria, a ira e a falsidade serem expostas sem pudor, até que
última grande guerra explodiu e só terminou com o lançamento de uma terrível bomba!
Depois deste evento, houve muitas discussões e muitos dedos inquisidores apontavam
para um canto e outro da minha vasta pele de terra e mar. Há bombas pipocando
na minha pele, até hoje!
Vejo tudo o que fiz se transformar nas mãos humanas. Absolutamente tudo o que
tenho e construí! Estou mudando a superfície! Eles estão conseguindo mudar o que
consegui a todo custo!
Mas, transformar a minha alma? Conhecer os propósitos de meu aparecimento?
Isso não!
Afinal, ninguém sabe de onde eu vim, para onde eu vou, de que sistema estelar eu
surgi e jamais descobrirão os segredos da minha origem.
Sou Gea, a Terra, essa bolinha azul do Universo!