A caixa de
fotografias que era guardada com cuidado no fundo do armário, era a diversão da
menina, que gostava de bisbilhotar as coisas da avó. Os velhos trajes
registrados no papel, cheios de rendinhas e babados aplicados em saias longas,
atraíam a menina e a faziam imaginar-se na época, quando se enrolava em lençóis.

Fotos de família com pai, mãe, bisavó e uma trempe
de filhos, todos sentados, de olhos fixos na câmera e no flash fumacento,
inevitável na época, certo dia deixaram de despertar sua curiosidade e deram
lugar a cartões postais e cartas amareladas, escondidos em um fundo falso da
caixa.

Amarrados com uma fita sépia guardavam segredos
intransponíveis, por serem escritos em uma língua estranha.

- Vó! Lê para mim? O que está escrito aqui? Quem
são? Isto é uma roupa de baile?

Era um cartão da irmã. Teria a idade da neta? Não
se lembrava mais! Mas, ciente de que alguém deveria conhecer sua história, pôs-se
a ler o que ela e o finado marido haviam colecionado.

- Aqui diz que a minha avó mandava lembranças e que
toda a família estava bem, mesmo com as dificuldades do pós Guerra. Celebravam,
faziam festas! Eu gostava tanto de ir a bailes! Em um deles conheci meu único
namorado… Era fevereiro de 1916… Esta data eu nunca esqueci. Na nossa
primeira dança, eu flutuava ao acompanhar seus passos e foram tantos rodopios e
tantos suspiros ao trocar olhares que, no final do baile, estávamos
completamente apaixonados… A família se opôs ao namoro, mas nós continuamos a
nos encontrar escondido para dançar e, no fim daquele ano, combinamos de fugir.
Ele prometeu me encontrar no jardim dos fundos de casa, mas jamais apareceu.
Acovardou-se! Fiquei muito triste… Depois disso, por acharem que eu
engravidara, imagine, casaram-me às pressas com o vovô, filho de amigos. Viemos
ao Brasil no dia seguinte à cerimônia, com o apoio de todos da família. Assim,
acabavam de vez com meus planos…

- E depois? E o rapaz?

- Nunca mais soube dele, desapareceu, e com o tempo
eu aprendi a gostar muito do seu avô. Seu avô foi um bom marido.

Secou uma lágrima furtiva, disfarçando.

- Este cartão manda notícias de primos, olhe a foto
deles.

O papel envelhecido crepitava em suas mãos, prestes
a se despedaçar, e ela descansava os olhos nas lembranças, confortada pela
presença da neta.

De repente, emudeceu! Seu rosto ficou vermelho e os
olhos se arregalaram.

-Vó?! O que foi? O que está escrito? É o tal moço?

-É ele! Onde estava escondida essa carta? Foi seu
avô! Ah, foi!

Não pode disfarçar mais e chorou copiosamente
depois de ler:

-Meu único amor, procurei-a em toda a parte, fui a
todos os bailes da cidade e invejei os passos apaixonados de outros casais,
perguntei a todos e recebi só evasivas, até que sua prima, com pena da minha
situação, segredou-me seu novo endereço. Esperei-a no jardim da frente de sua
casa por horas, mas você nunca apareceu! Acovardou-se? Fiquei muito triste…

Dezembro de 1916.