Edward, sentindo estranha vibração, tentava não interromper a conversa
que percebia a seus pés.
-Sou a melhor, saibam todos disso, falo muito e levanto até os mortos!
Olhem aquela infeliz, como é tímida, tão quieta! Aposto que não serve
para nada.
-Mas, e eu? Sou a maior! Não como uns e outros, tão ínfimos!
-Reconheço as indiretas, é comigo é comigo, que tragédia!, dizia a outra
com a autoestima abalada.
Entender repentinamente a mensagem de cada uma das plantas à sua volta
era o que mais surpreendeu Edward, na escuta de assunto riquíssimo,
embora incrível e terminantemente proibido para futuros comentários.
Na árida Londres não teria tido esta oportunidade! Estaria louco?
Mudar-se para Birminghan foi um erro, um ato impensado?
-Nos hospitais vi que cada ser humano reage à ansiedade, à insegurança
e ao medo a seu modo, e apesar da imobilidade destes vegetais, temos
os mesmos comportamentos! Interessante poder compará-los com pacientes,
com médicos e, afinal, com a sociedade toda de Londres! Mas o que estou
dizendo?!?! A empáfia dos médicos londrinos, ainda a usar “curas” que
deixavam muito a desejar, era o que mais o revoltara.
O ano? 1930.
Naquele dia ventoso, as nuvens corriam, umas atrás das outras. À tarde,
já haviam se unido e libertaram pequenas tormentas que mantinham em seus
regaços e a consequente chuva, tão pesada, que forçou o médico a pedir
abrigo na primeira casa que encontrou.
Toc, toc, toc.
-Ó de casa!
-Quem é que bate?, respondeu uma criança amedrontada.
-Dr. Edward. Estava colhendo plantas para meus remédios. Posso esperar
aqui a chuva passar?
Desconfiado, o menino espiou pela fresta da porta e, ao ver bons trajes
encharcados, acalmou-se. Com sorriso tímido, convidou o estranho a se
sentar ao lado do fogo.
Um grunhido seco vindo do fundo do aposento único e fez Edward notar,
no escuro, o corpo esquálido de um velho. Um monte de palha imunda era
o seu leito.
-Quem é? perguntou Edward à criança.
-Meu avô. Uma peste levou o resto da família e só sobrou ele. A culpa
é minha, não sei o que fazer!O senhor disse que é médico? Pode curá-lo?,
perguntou o menino, aflito.
-Vamos ver. Mmm...Ele deve estar chateado com as mortes, não?
Depois do menino concordar, o médico abriu a inseparável maleta. Tirou
dela uma garrafinha de conhaque, toda sorrisos e cheia de flores bêbadas
e, com pequenas doses, obrigou o acamado a engolir o líquido amargo e
denso.
Fez algumas perguntas, na tentativa de entender o inesperado paciente.
A consciência tirava-o dos cochilos para novo gole da garrafa, até que
foi acordado de uma vez pela criança, muito alegre.
-Dr, dr! Já é de manhã. As nuvens ainda dormem e o céu está azul.
Já pode ir!
Do fundo do aposentou ouviu barulho de palha sendo removida.
O velho, em pé, arrastava com dificuldade a enxada no chão de terra.
Limpou
as mãos na calça rota e a estendeu, trêmula ainda, para o estranho.
-Obrigado, o senhor salvou minha vida. Como se chama?
-Dr. Edward, meu caro, Dr. Edward Bach.
Da garrafinha de conhaque, deixada aberta, todos puderam ouvir:
-Não falei que eu levanto mortos? Hic!