Dragão
4 novembro 2012

Passo de dança

por Silvana Corbetta Boni

A caixa de
fotografias que era guardada com cuidado no fundo do armário, era a diversão da
menina, que gostava de bisbilhotar as coisas da avó. Os velhos trajes
registrados no papel, cheios de rendinhas e babados aplicados em saias longas,
atraíam a menina e a faziam imaginar-se na época, quando se enrolava em lençóis.

Fotos de família com pai, mãe, bisavó e uma trempe
de filhos, todos sentados, de olhos fixos na câmera e no flash fumacento,
inevitável na época, certo dia deixaram de despertar sua curiosidade e deram
lugar a cartões postais e cartas amareladas, escondidos em um fundo falso da
caixa.

Amarrados com uma fita sépia guardavam segredos
intransponíveis, por serem escritos em uma língua estranha.

- Vó! Lê para mim? O que está escrito aqui? Quem
são? Isto é uma roupa de baile?

Era um cartão da irmã. Teria a idade da neta? Não
se lembrava mais! Mas, ciente de que alguém deveria conhecer sua história, pôs-se
a ler o que ela e o finado marido haviam colecionado.

- Aqui diz que a minha avó mandava lembranças e que
toda a família estava bem, mesmo com as dificuldades do pós Guerra. Celebravam,
faziam festas! Eu gostava tanto de ir a bailes! Em um deles conheci meu único
namorado… Era fevereiro de 1916… Esta data eu nunca esqueci. Na nossa
primeira dança, eu flutuava ao acompanhar seus passos e foram tantos rodopios e
tantos suspiros ao trocar olhares que, no final do baile, estávamos
completamente apaixonados… A família se opôs ao namoro, mas nós continuamos a
nos encontrar escondido para dançar e, no fim daquele ano, combinamos de fugir.
Ele prometeu me encontrar no jardim dos fundos de casa, mas jamais apareceu.
Acovardou-se! Fiquei muito triste… Depois disso, por acharem que eu
engravidara, imagine, casaram-me às pressas com o vovô, filho de amigos. Viemos
ao Brasil no dia seguinte à cerimônia, com o apoio de todos da família. Assim,
acabavam de vez com meus planos…

- E depois? E o rapaz?

- Nunca mais soube dele, desapareceu, e com o tempo
eu aprendi a gostar muito do seu avô. Seu avô foi um bom marido.

Secou uma lágrima furtiva, disfarçando.

- Este cartão manda notícias de primos, olhe a foto
deles.

O papel envelhecido crepitava em suas mãos, prestes
a se despedaçar, e ela descansava os olhos nas lembranças, confortada pela
presença da neta.

De repente, emudeceu! Seu rosto ficou vermelho e os
olhos se arregalaram.

-Vó?! O que foi? O que está escrito? É o tal moço?

-É ele! Onde estava escondida essa carta? Foi seu
avô! Ah, foi!

Não pode disfarçar mais e chorou copiosamente
depois de ler:

-Meu único amor, procurei-a em toda a parte, fui a
todos os bailes da cidade e invejei os passos apaixonados de outros casais,
perguntei a todos e recebi só evasivas, até que sua prima, com pena da minha
situação, segredou-me seu novo endereço. Esperei-a no jardim da frente de sua
casa por horas, mas você nunca apareceu! Acovardou-se? Fiquei muito triste…

Dezembro de 1916.

25 fevereiro 2012

Você conhece minha alma?

por Silvana Corbetta Boni

Com a química disponível, nasci ruidosa e vermelha, fumegante, e meu
desenvolvimento foi lento e de grandes alterações. Crescer, não cresci
e, logo que apareci, tornei-me autossuficiente, sem pai ou mãe para me
dar apoio, contaminando o espaço com a força da minha presença.
Lembro de idos tempos, quando a fúria que brotava da minha alma me
isolava e me deixava infértil. Nada poderia se comparar com aquele mal
estar que minha condição gerava e não havia ser algum  que sequer
imaginasse aparecer, embora eu tivesse sonhos de uma vida harmônica mas,
em vista de minhas condições, difícil de alcançar. Só quando melhorei meu
comportamento pude ter companhia, também furiosa e ameaçadora como eu
mesma no passado, o que me deixava com certo temor respeitoso.
Mas eu não merecia um fim de época tão inglório! Uma catástrofe, uma
catástrofe destruiu todos os meus companheiros nervosos e fiquei só com
baratas, formigas e outros ser de menor valor. Nada daquelas brigas
horrorosas, com sangue esguichando de gargantas que eu gostava tanto
de ver entre os grande vertebrados!
O tempo passou e minha alma, em turbilhões menos sufocantes, proporcionou
novos aparecimentos. Plantei pomares vastíssimos, semeei campos com flores
e desviei cursos de água para formar lagos, riachos, grandes rios e oceanos,
estudando com grande calma o melhor lugar para um novo paisagismo.
No decorrer desta era eu, muito feliz, ajudei novos amigos, surgidos nas
evoluções naturais, a desfrutarem de tudo o que eu poderia lhes dar!
Foi então que surgiu aquele homem. Alto, meio barbudo e de corpo bem
torneado.
Fiquei de olho nele e morri de ciúmes, quando apareceu uma mulher linda,
tirada de uma costela dele, e o tal ficou tão entusiasmado com sua
presença, que não ouvia e nem via mais nada à sua frente!
Foram anos de muito ciúmes, de muita raiva, finalizados por uma grande
explosão.
Havia demorado tanto para eu conseguir companhia humana, inteligente,
uma só, e agora, essa sirigaita aparecia roubando-o de mim e ainda pôs
os olhos na minha fruta predileta?! Indignada, pus os dois no inferno,
um lugar que eu bem conheço pois me faz lembrar meu passado efervescente.
Pensei que a situação estivesse resolvida, mas vieram outros Adões e
outras Evas.
Alguns grupos se formaram onde havia fartura de alimentos,
até estocar conseguiam, enquanto outros minguavam por causa do ambiente
em que surgiram.
Foi então que nasceu a ganância e vi novamente a fúria aparecer, agora,
na alma dos homens!
Fiz os mares invadirem as terras e secas terríveis aparecerem, mas nada
os fez mudar. Apelei para o aparecimento de sábios. Nada!
Novamente sangue esguichava de espadas e guilhotinas.
Puxa! O que foi que fiz? Como pude dar tanto e ter um retorno desses?
Recentemente, esse tal ser inteligente que me habita, descobriu que podia melhorar
as máquinas toscas anteriores e, com os recursos que eu proporcionei durante toda
essa minha evolução, começou uma grande destruição!
Vi a maldade, a luxúria, a ira e a falsidade serem expostas sem pudor, até que
última grande guerra explodiu e só terminou com o lançamento de uma terrível bomba!
Depois deste evento, houve muitas discussões e muitos dedos inquisidores apontavam
para um canto e outro da minha vasta pele de terra e mar. Há bombas pipocando
na minha pele, até hoje!
Vejo tudo o que fiz se transformar nas mãos humanas. Absolutamente tudo o que
tenho e construí! Estou mudando a superfície! Eles estão conseguindo mudar o que
consegui a todo custo!
Mas, transformar a minha alma? Conhecer os propósitos de meu aparecimento?
Isso não!
Afinal, ninguém sabe de onde eu vim, para onde eu vou, de que sistema estelar eu
surgi e jamais descobrirão os segredos da minha origem.
Sou Gea, a Terra, essa bolinha azul do Universo!
26 janeiro 2012

Entre nuvens e flores

por Silvana Corbetta Boni

Edward, sentindo estranha vibração, tentava não interromper a conversa 
que percebia a seus pés.
-Sou a melhor, saibam todos disso, falo muito e levanto até os mortos! 
Olhem aquela infeliz, como é tímida, tão quieta! Aposto que não serve 
para nada.
-Mas, e eu? Sou a maior! Não como uns e outros, tão ínfimos!
-Reconheço as indiretas, é comigo é comigo, que tragédia!, dizia a outra 
com a autoestima abalada. 
Entender repentinamente a mensagem de cada uma das plantas à sua volta 
era o que mais  surpreendeu Edward, na escuta de assunto riquíssimo, 
embora incrível e terminantemente proibido para futuros comentários. 
Na árida Londres não teria tido esta oportunidade! Estaria louco? 
Mudar-se para Birminghan foi um erro, um ato impensado?
-Nos hospitais vi que cada ser humano reage à ansiedade, à insegurança 
e ao medo a seu modo, e  apesar da imobilidade destes vegetais, temos 
os mesmos comportamentos! Interessante poder compará-los com pacientes, 
com médicos e, afinal, com a sociedade toda de Londres! Mas o que estou 
dizendo?!?! A empáfia dos médicos londrinos, ainda a usar “curas” que 
deixavam muito a desejar, era o que mais o revoltara.
O ano? 1930.
Naquele dia ventoso, as nuvens corriam, umas atrás das outras. À tarde, 
já haviam se unido e libertaram pequenas tormentas que mantinham em seus 
regaços e a consequente chuva, tão pesada, que forçou o médico a pedir 
abrigo na primeira casa que encontrou.
Toc, toc, toc.
-Ó de casa!
-Quem é que bate?, respondeu uma criança amedrontada.
-Dr. Edward. Estava colhendo plantas para meus remédios. Posso esperar 
aqui a chuva passar?
Desconfiado, o menino espiou pela fresta da porta e, ao ver bons trajes 
encharcados,  acalmou-se. Com sorriso tímido, convidou o estranho a se 
sentar ao lado do fogo. 
Um grunhido seco vindo do fundo do aposento único e fez Edward notar, 
no escuro, o corpo esquálido de um velho. Um monte de palha imunda era 
o seu leito.
-Quem é? perguntou Edward à criança.
-Meu avô. Uma peste levou o resto da família e só sobrou ele. A culpa 
é minha, não sei o que fazer!O senhor disse que é médico? Pode curá-lo?, 
perguntou o menino, aflito. 
-Vamos ver. Mmm...Ele deve estar chateado com as mortes, não?
Depois do menino concordar, o médico abriu a inseparável maleta. Tirou 
dela uma garrafinha de conhaque, toda sorrisos e cheia de flores bêbadas 
e, com pequenas doses, obrigou o acamado a engolir o líquido amargo e 
denso. 
Fez algumas perguntas, na tentativa de entender o inesperado paciente.
A consciência tirava-o dos cochilos para  novo gole da garrafa, até que 
foi acordado de uma vez pela criança, muito alegre.
-Dr, dr! Já é de manhã. As nuvens ainda dormem e o céu está azul. 
Já pode ir!
Do fundo do aposentou ouviu barulho de palha sendo removida.
O velho, em pé, arrastava com dificuldade a enxada no chão de terra. 
Limpou 
as mãos na calça rota e a estendeu, trêmula ainda, para o estranho.
-Obrigado, o senhor salvou minha vida. Como se chama?
-Dr. Edward, meu caro, Dr. Edward Bach. 
Da garrafinha de conhaque, deixada aberta, todos puderam ouvir: 
-Não falei que eu levanto mortos? Hic!
13 janeiro 2012

O estranho chá das cinco

por Silvana Corbetta Boni

A festa no velho casarão nos trouxe momentos de enorme alegria.
Porém, o desespero que se seguiu é o que quero registrar!
A casa estava limpíssima em todos e nem parecia que o lugar estivera 
descuidado por anos, graças à iniciativa da proprietária em contratar 
uma equipe de faxineiros e celebrar o renascer de seu lar com um chá 
para suas amigas. Nada mais glorioso!
Compartilhar da nobre companhia de todas e nos deliciar com goles da 
bebida, onde bolinhos de chuva cobertos de geleia de amora eram molhados, 
pareceu-nos divertido e, perante a dúvida de parte do grupo se deveríamos 
entrar ou não, eu, com toda a minha verve, convenci-os.
-Vamos nessa, cambada, que a hora é boa!
Aprumamos óculos e capas, meio temerosos mas de olho nas iguarias, e 
percebemos que  poderíamos entrar se insistíssemos.
A reunião, que nos parecia tão amistosa, logo se transformou em uma 
batalha! As inimigas brandiam as bengalas e se armavam do que lhes surgisse 
nas mãos, para nos expulsar.
Com rendinhas e leques cheirando a naftalina, agitavam-se todas à nossa passagem.
-Já para fora!, rosnavam, esquecidas da delicadeza que o evento requeria, 
com geleia escorrendo dos cantos das bocas.
Nós insistimos, avançando lentamente, até que vencemos! Maravilha!
Havia músicos no fundo do salão, que tiravam das toscas cordas sons 
estridentes, muito agudos,  mas a festança estava ótima e por que não participar?
Confesso, eu não deveria ter proposto a invasão. Arrependi-me profundamente.
Estávamos satisfeitos em dominar aquelas senhoras que, a partir da nossa 
vitória, cansadas, desistiram de nos expulsar.
Ficamos felizes ao ouvi-las dizer que talvez não déssemos trabalho e por 
isso nos deixariam quietos, e assim, ficaria tudo bem.
Continuaram, então, a lambança açucarada para a qual haviam se preparado 
por muito tempo.
-Coisas da casa...Acontece... Não há controle...
Apiedei-me ao ouvir comentários da proprietária, desculpando-se em 
cada mesa, envergonhada.
Depois de servidos, cada um de nós se dirigiu ao local cedido a contragosto, 
de olhos altos no inimigo, que seguia nos evitando e sempre desviando de nós.
Era hilário verem os caminhos retos alterados em longas curvas! Muitas velhinhas
 tinham dificuldade de andar! Quá, quá, quá!
Mas a nossa situação não era nada engraçada...
Segurando xícaras e pratos de bolinhos, tentamos todas as posições alternativas.
Víamos as senhoras se deliciando e nós não conseguíamos comer nada!
Foi por isso que me arrependi. Que buuurro!!
A nossa conquista foi em vão. Não pudemos comer, pois tínhamos as mãos ocupadas 
sem poder  pousar. Esquecemos do detalhe da gravidade, aquela história da 
maçã de Newton.
-Como podem fazer isso com nossos vestidos novos, seus morcegos nojentos? 
disseram as senhoras,  indignadas.
Comprovando a lei do sábio, tudo o que havíamos pego caíu do teto!
Causamos uma tal chuva, que as velhinhas furiosas ficaram pintadas com chá e geleia!
Um desastre!
5 dezembro 2011

O prazer da morte

por Silvana Corbetta Boni

Ela correu para o lado, aflita.

Ele ameaçou para o mesmo, mas correu para o outro, ludibriado pela sua sagacidade.

”Ufa! Escapei”, ela pensou.

Nova tentativa e ela, tão pequenina e miserável, mais uma vez teve sucesso na fuga.

“Vou te pegar, sua danadinha! E quando eu te pegar vou ter muito prazer!”

O coração palpitava no corpo dela e uma sensação de desamparo tomou conta da pequena.

Suava frio, assustada.

Acuada no canto, pretendeu ficar ali até que ele desistisse do ataque mas, com insistência, ele investia, jogando para o lado o que estivesse interrompendo sua marcha.

Naquele momento vieram à tona todas as suas lembranças recentes. Vivia em um lugar sujo, úmido e fedido e, vez por outra, punha os pés imundos para fora e era justamente isso o que a fazia se lamentar naquele momento. Às vezes dava uma volta na calçada e gostava de fazer isso à noitinha, aproveitando o calor que emanava do chão depois de um dia quente, e logo voltava.

“Por que fui sair? Eu estava bem lá, protegida. Pelo menos não estaria nesta situação… Eu não sabia que o mundo poderia ser assim, agressivo, violento… Quero voltar, quero muito voltar! Mas como? Esse cara não para de me perseguir!”

Na ponta dos pés ela tentou a fuga, mais uma vez. Deu alguns passos, cautelosa, olhando para todos os lados. Ele, por sua vez, continuava a procurá-la.

“Ah, se eu te pego…”, repetia a cada movimento.

Ela, então, escondeu-se embaixo da cama, com inveja da liberdade com que ele podia andar pela casa, mesmo que fosse para atacá-la, mesmo que tivesse que arrumar a bagunça da caçada.

Ele, enfim, sentou-se na poltrona, cansado com a perseguição. Abriu uma lata cerveja e disse entre dentes: “Desgraçada, fugiu! Mas vou pegá-la, vou sim!”

Ao ouvir o barulho da lata sendo aberta, ela, que tinha um faro infalível para cerveja, ficou ansiosa por um gole. Adorava cerveja, não sabia o porquê. Já vira muitas companheiras morrerem pela bebida, mas queria um gole! Um só!

Na ponta dos pés, saiu debaixo da cama e seguiu seu instinto em direção à lata apoiada no chão.

“Ele nem vai reparar. Está cansado e se eu não fizer nenhum barulho…”

Foi na direção correta, direto até a sala.

Com o canto dos olhos ele percebeu. Conhecia o artifício e, assim, ficou bem quieto, imóvel.

Deixou-a aproximar-se da lata e, lentamente, tirou o chinelo e matou a pobre barata!

15 outubro 2011

O julgamento

por admin

No terreno dos fundos da casa, o remexer de folhas denunciava a ação. Os protagonistas apelaram para o último recurso, o de passar o caso para quem entendesse do assunto. Assim, as duas principais envolvidas estavam à frente da confusão, cercadas por parentes inconsoláveis, de ambos os lados que tentavam, sem sucesso, acalmá-las. A natureza das duas as impediam de parar. Precisavam andar o tempo todo, muito embora os cabelos do juiz se ouriçassem ao ver a intranqüilidade delas no tribunal, ali montado às pressas. Havia falta daquele produto em questão no mercado, fato que despertava ganância em todos.
-Foi ela! Sim, eu a vi carregando sacos, fugindo escondida da cozinha da Dona Maria. Foi ela, sim! disse a primeira, que tratou de mudar de lugar, correndo.
-Como pode me acusar assim? Onde estão as provas? Se tem tanta certeza, prove! respondeu a ré, passando as mãos nas antenas para poder ir atrás da inimiga.
-Não fotografei ou filmei, meu celular estava com problemas e não consegui!
-Então, Meritíssimo, não mereço castigo! E correu para o outro lado do terreno.
O juiz, muito circunspecto por trás dos óculos, dono de uma cabeleira vasta em cujo topo se via uma faixa branca de cabelos, concentrou-se.
Frente à insistência da acusadora, mostrou a fúria de sempre, ao mandá-la se calar, aos berros e arreganhando os dentes afiados!
-Preciso me concentrar! Onde é que já se viu tamanha desfaçatez? Fique quieta ou mando prender você por desacato! Sabe com quem está falando, não é?
-Mas…senhor…Meretíssimo, eu vi! Disse a acusadora balbuciando e quase molhando as calças pelo medo. Havia tomado a decisão de processar a outra, quando deu pela falta de vários sacos de açúcar na dispensa da Dona Maria. Fazia muito tempo que não passava por ali, para fazer a vistoria dos mantimentos, certificar-se dos prazos de validade, das quantidades em cada lata e do consumo dos habitantes da casa. Nada passava despercebido e tudo seria fotografado e arquivado em seu celular, de última geração. À noite, muito organizada, ela deixaria o aparelho carregando, mas bem naquela noite, a falta de energia repentina a impediu e não estava com o aparelho carregado no momento do flagrante. Pensando tudo isso, naquele instante tenso na frente do juiz, tentava se explicar.
O juiz, por sua vez, vendo o caso das duas sem solução, apelou, sentenciando:
-Atenção, formigas noturnas, que fazem suas rondas sorrateiras, com a autoridade a mim conferida como Magistrado deste tribunal, depois de anos vasculhando latas de lixo, acima do bem e do mal, depois de estudar a jurisprudência declaro: que se danem!
-Como juiz que sou – disse isso jogando o rabo de guaxinim para o lado – declaro que o produto do roubo seja entregue na minha dispensa hoje à noite, e que as duas carreguem os tais sacos sem demora, pois estou precisando deles para fazer um doce.

15 outubro 2011

O Paraíso azul

por admin

Carente de confiança, ela desfilava em frente aos automóveis, procurando,
sempre procurando.
O que teria sido feito da SUA família?
Chegara ali, naquele pequeno bairro rico, em dia de sol, dentro de um veículo,
aconchegada no banco de trás, com tal prazer, que não quis mais sair ao chegar
ao destino final.
Antes do embarque, como uma espécie de recompensa ou chantagem, ou mesmo pela
má intenção de largá-la sem que ela soubesse, havia comido e bebido, mas seus
olhos pesaram de sono e ela perdeu tudo: aconchego, família e comida.
-Você tem olhos verdes! Costumava ouvir dos admiradores que passavam por ali,
sem saberem que era sem teto ou órfã.
-Que maciez, que vontade de beijá-la e de abraçá-la!
Ela, muito convencida de sua beleza, já não acreditava nessas bobagens.
Um dia, no passado remoto, pensou que sua condição fosse imutável, com o mesmo
tipo de vida. Depois, pensava, o Paraíso lhe abriria as portas e entraria em
contato com anjos. Todas as vezes que dormitava, sonhava com anjos, muitos
anjos em um fofo céu azul, cheio de nuvens brancas e douradas, em nobres
pensamentos.
Mas a vida na esquina era difícil, não tinha sossego pois estava no caminho
para um grande parque. Apesar dos admiradores que se sucediam intermináveis,
comentando a beleza da sua pele escura e do verde de seus olhos, ela procurava
em cada um aquilo que perdera, o aconchego de um lar, coisa que, sob nenhuma
hipótese, pretendiam lhe proporcionar.
Em um dia quente, naquela esquina parou uma carroça. Admirada com a magreza
do cavalo, ela se aproximou. Olhou bem as patas do animal e depois olhou para
o carroceiro, um ser alto, magro, cujo olhar a conquistou imediatamente. Quem
saberia dizer se não era aquele o cavaleiro mágico que a transportaria a novos
horizontes? Afinal, o que ela tinha a perder, se já não havia o seu maior bem,
a família que, na mudança, perdera de vista? Foi esquecida ou se esquecera
deles, ao fugir em sonhos da confusão da mudança! Não se conformava...
Desconfiada como sempre, pulou na carroça sem ser percebida e acabou dormindo
seu sono atávico aconchegada em cima da fofa malha do carroceiro. Gostou do
sacolejo da carroça.
Ao chegar em casa, o carrroceiro só percebeu o animal negro por causa de seus
olhos verdes, que brilhavam na escuridão.
Desceu, pegou-o no colo e passou suas mãos encarquilhadas no seu pelo macio.
Naquele momento, a gata se esqueceu de tudo, do afastamento da família do
bairro rico, e principalmente, da falta de uma boa cama.
Ali seria seu lar, debaixo do pontilhão que o carroceiro pintara de azul,
a cor do Paraíso.
15 outubro 2011

Quartel general

por admin

Logo depois da Segunda Grande Guerra, um senhor chamado James Garrison escreveu uma carta em papel timbrado com a bandeira dos Estados Unidos, ao Comando do Quartel General de Viena, em que pedia esclarecimento sobre o paradeiro de várias caixas, confiadas a um grupo de soldados locais pelas mãos de um tal Mr Paitl, e que haviam sido encontradas em outro lugar. Ficaram, a partir de então, em uma garagem, sem que se soubesse do seu conteúdo.
Muito temerosos das represálias que poderiam se suceder à abertura das caixas, os quatro húngaros, logo localizados, foram encaminhados ao escritório do Capitão Jeffreys, chefe da equipe de controle de propriedades e sobreviventes.
Sucederam-se as explicações que mostravam desde detalhes do recinto, até a descoberta de marcas de botas no chão, depois da invasão daquele lugar por pessoas desconhecidas, no meio do entusiasmo e alegria que tomaram todos os europeus, no final daquele triste episódio.
Era janeiro de 1948 e o fato havia ocorrido em 1945. Eles, portanto, não se lembravam muito bem dos detalhes, mas fariam o impossível para reaverem as caixas, chegadas às mãos de Mr. Paitl no mês de março. Soldados alemães, prevendo a derrota iminente, fugiram do território ocupado, a cidade de Viena, deixando para trás o que os atrapalharia. Pretendiam voltar, mesmo que às escondidas, e pegar o que haviam deixado para trás.
Naquele momento, todos estavam muito curiosos, até o Alto Comando da Área de Viena, pois pilhagens de guerra haviam sido freqüentes durante a guerra e eles estavam ali como autoridade, para reorganizar o país.
Alguns meses depois, nova carta foi enviada ao Quartel General de Viena. Era Mr. Paitl explicando que, como por milagre, as caixas haviam sido colocadas na garagem, novamente.
O Capitão se dirigiu para lá imediatamente, depois de tentar contatar James Garrison sem sucesso. Ao chegar, depois de ler um bilhete em papel timbrado com a bandeira dos Estados Unidos, que logo reconheceu, pode ver o que jamais imaginou, mas suspeitava: eram relatórios e cartas alemães, escritos muitas vezes em código que, àquela altura já havia sido decifrado. Ali, à frente do americano, o destino de membros da SS se esclarecia!
Lá estavam os caminhos para se chegar ao que fora considerado secreto. Aquele conjunto volumoso, empilhado no canto da garagem, era o que restou do que deveria ser escondido e que, de alguma forma, fora depositado num canto e fora parar nas mãos inimigas.
Admirados com a descoberta, os militares americanos que controlavam os territórios libertados, confiscaram tudo para averiguação.
Já nos escritórios do quartel, pesquisando a papelada, perceberam que a carta que disparara o alarme para a descoberta e fora escrita por James Garrison, havia sido postada em dezembro de 1948, quase um ano depois das providências do capitão Jeffrey, e a maior surpresa foi descobrir que o autor, James Garrison, morrera em 10 de março de 1945!

5 outubro 2011

Jogo de xadrez

por admin

Eram quatro fazendas e um só proprietário, rico e avarento, que abrira os braços para os pais, abrigando-os, mas mantinha a mulher e os quatro filhos com rédeas curtas, sem acesso algum à sua fortuna. Em cada fazenda havia um cavalo de raça, muito valioso, que tinha a seu dispor dois peões e um séquito de veterinários, tratadores e limpadores.
Em um triste dia, o fazendeiro não acordou; foi-se para o Paraíso, para desespero de sua esposa que, a partir de então, ficou em choque!
Os filhos e suas mulheres acorreram à casa paterna, para cuidar da tímida e indefesa mãe. A bem da verdade, o que importava era a herança, e queriam garantir que algo inesperado aparecesse.
Como, quando, onde e por quê? Ninguém entendeu o desejo paterno, rabiscado em papel sobre a mesa. Só o padre, o da última bênção, que ouviu o comentário e ficou feliz, tratando rapidamente de avisar os bispos de cada uma das cidades. O morto pretendia doar os cavalos para a igreja, e a família, a partir de então, ficou em choque!
Os velhos avós, muito religiosos, apoiavam o desejo do filho e se posicionaram contra os quatro netos que, sem ter ainda como fazê-lo, não conseguiam cobrir os salários dos peões e estes, aos poucos, desistiram, deixando os cavalos encastelados em seus lindas estrebarias. Os filhos usaram de muitos artifícios para convencerem os bispos mudar de lado, prometendo-lhes impossibilidades ou, mesmo, chantageando-os. Fato é que conseguiram dois!
A mãe, que a tudo observava incrédula, não tinha a menor iniciativa e não queria entrar em desacordo com os filhos. Assim, acatou suas expectativas, achando-as justas, mas estava tão fragilizada, que suas amigas, muito zelosas, combinaram uma viagem. Iriam à Europa, o que a fez providenciar uma licença para o juiz liberar dinheiro do inventário, para estranhamento geral. Em um mês, ela voltaria feliz, com nova visão do mundo, até então desconhecido.
No dia combinado, os filhos foram recebê-la no aeroporto. Viram as amigas muito animadas, cumprimentando familiares, cheias de malas e pacotes, conversando sem parar, e nada da mãe! Correram para o balcão de embarque para pedir explicações, mas o que receberam foi uma carta, datada do dia da partida para a Europa e endereçada a eles. Ela não voltaria e, a partir de então, todos entraram em choque!
Em um chalé alpino, os dias passavam lentos. A viúva, muito tímida, mas com novas cores no rosto, desfrutava de uma nova companhia, seu advogado.
Haviam vendido secretamente os cavalos e, a partir de então, todos estavam em cheque. Mate!

25 setembro 2011

Uma rosa para o inimigo

por Silvana Corbetta Boni

“Sinto saudades… “

Ajoelhou-se no consultório do psiquiatra, como em reverência, ao constatar de que jamais a esqueceria.

Uma lágrima fez com que ele se lembrasse dela, que chamara a sua atenção desde uma certa manhã, com sua exuberância, sua tez aveludada, que expunha de forma cuidadosa aos primeiros raios de sol.

Lembrava-se principalmente de seu perfume…ah, o perfume… Aquela nota de frescor flutuaria nos corredores, nos quartos, na sala ou qualquer outro lugar em que estivesse.

Arrancá-la dali, daquela esquina, foi o seu súbito desejo e, assim, ansiou por cada momento em que pudesse tê-la, na intimidade do quarto, admirando seus detalhes.

Preparou-se para o assédio imediato mas, ao desviar sua atenção para o lado, perdeu-a de vista.

Onde estaria? Procurou-a, desesperado. Deu a volta no quarteirão, olhou dentro dos veículos que passavam. Não a encontrou!

“Não pode ser, não pode ser!”

Perdeu-a!

Andou alguns passos, ainda com a atenção voltada para a lembrança dela e, desconsolado, viu-a enfim, mas nos braços de um amigo, casado. Uma onda de ciúmes surpreendeu-o indignado. Sem saber o que fazer, escondeu-se atrás de uma coluna e observou os passos apressados em direção a um restaurante. Detestou, naquele momento, todos os homens da face da Terra!

Sentiu uma raiva imensa, que logo se transformou em ira, ao aspirar o ar e sentir o frescor do rastro dela.

Desconsertado, abrigou-se no primeiro bar que encontrou e pediu uma bebida. Logo a seguir, outra, e assim foi, até que criou coragem. Pagou a conta cambaleando e foi na direção do restaurante.

Agora seria valente o suficiente para tomar satisfações e enfrentaria o ex amigo de peito aberto, sem esconder emoções.

Entrou. Tropeçou na dobra do tapete, mas logo se recompôs. O fato de andar alguns metros, somado ao de respirar rapidamente por causa da raiva que sentia, fez com que a bebedeira diminuísse e ele pudesse raciocinar. Esticou o paletó, arrumou a gravata e aproximou-se da mesa, fingindo controle.

O casal olhou-o, surpreso, afinal não eram dados a compartilhar mesa de almoço durante a semana, no meio do expediente.

“Dá licença?” ele disse. Esticou a mão e agarrou a rosa.

“O que foi, amigo?” disse o outro.

“Essa é minha! Não posso vê-la nas suas mãos!”

“O quê?! Acabei de comprá-la na esquina, para a minha esposa!”

“Não! Essa é minha ou de mais ninguém!”

“Devolva já!”

“Não posso!”

Espatifou a rosa no chão do restaurante e pisoteou-a e, sob o olhar incrédulo de todos, caiu de joelhos, chorando…