O salão da exposição ocupava um enorme espaço vazio. Dias antes haviam pintado as paredes e o teto com preto, de forma que, ao entrar, o visitante se admirasse com a escuridão, em contraste com a alvura das colunas brancas do prédio, retas, lisas e silenciosas, testemunhas da solidão que permeava o ambiente, durante os intervalos das produções que ocorriam ali.
“Que imenso espaço vazio!”, exclamou Toni, ao chegar esbaforido de um trânsito infernal.
“Não fossem as ameaças do motoqueiro, eu teria chegado antes e conseguiria encontrar o professor. Malditas motos! Quase matei o rapaz, depois daquela fechada que me deu! Saiu me amaldiçoando, fazendo gestos…Só abri a porta na hora errada, bem na hora em que ele passava…É bem verdade que eu o havia visto, hehehe. Paciência…”
Em pouco mais de meia hora, o trânsito de pessoas naquele interior ficou intenso.
Desfilavam à frente de Toni apressados marceneiros e pintores de parede que, com suas escadas, atropelavam os outros responsáveis pelo acabamento, esbarrando nos artistas carregados de obras, que se estapeavam pela melhor localização. Sabiam que, além do uso de cores vibrantes, muito atuais, aplicadas em seus estúdios distantes, o lugar apropriado e com boa iluminação artificial causaria impacto positivo para a tão esperada venda.
“Estou com a camisa manchada de tinta. Logo o marrom, que não sai ao lavar! Droga, camisa nova…Estranho que ainda esteja fresca!”, dito isto esfregou a mancha como pôde, o que só fez aumentar o problema. Nervoso, pensou que a sua fértil imaginação estivesse lhe pregando uma peça ao ouvir uma risadinha abafada.
“Já peguei o meu lugar! Daqui não saio, até que e pendurem o quadro.”
Passados alguns minutos, apareceu o marceneiro, o encarregado desta função e foi só então que Toni relaxou. Esqueceu-se do trânsito, da moto e da porta chutada do automóvel. Respirou feliz cm o resultado.Outros artistas faziam o mesmo, depois da disputa acirrada e consequente conformação. Nem todos saíram bem do recinto. Muita mágoa sobrou para contar histórias.
“Não quero nem saber! Aqui não era o meu espaço, apossei-me dele. Que se danem! Vou sair pelos fundos, assim não me encontram para tomar satisfações.”
Apesar da porta ter feito um barulhinho, nheeec…, ao ser aberta, ninguém percebeu quando Toni sumiu, passando pela pia, manchada pela tinta da parede, onde se lavavam os pincéis. A água escorrera para fora e havia uma poça negra no chão.Quando todos os quadros estavam a postos, vieram os faxineiros, pois a inauguração seria no dia seguinte. Ficaram exaustos e nervosos, pois o cheiro de tinta fresca era quase insuportável. O ambiente estava pesado e eles trataram de sair logo.
O professor responsável apareceu neste final de dia, esfregando as mãos satisfeito. Embora houvesse posto em votação a escolha da cor, escolheu ele mesmo a tinta preto, à base de chumbo. Tóxica! Havia ganho a cor areia e ele não fora nada democrático na decisão. Ao sair do salão levou um escorregão lamentável e foi mancando até o interruptor. Nem percebeu as risadas, tamanha a dor que sentiu.
“Óleo no chão?”, perguntou-se ao se abaixar para examinar o ponto em que se acidentara de perto.
Uma última checada no acabamento das paredes fez seus olhos se encontrarem com os do motoqueiro empoleirado em cima dos adereços da enorme porta. Esperara o dia inteiro para derrubar o resto da lata de óleo usado em cima do Toni. Uma gota ele conseguira!
“Saia já daí!”, disse-lhe o mestre.
Ele desceu, desculpou-se e foi embora, enjoado pelo cheiro da tinta que respirara o dia inteiro.
No dia seguinte, ao serem abertas as portas, toda a mostra estava encharcada de óleo, inclusive os quadros. Só um restou intacto, o do Toni, limpinho!
O artista foi preso, depois do rebuliço provocado com a chegada de fotógrafos e carros de polícia, que impediram o linchamento!
Ninguém reparou na porta dos fundos que, sob ação do vento, fazia um contínuo nheeec, nheeec…,ao se abrir e fechar e revelava no chão, o rastro dos pneus da moto, que passara sobre poça negra, formada pela lavagem dos pincéis. Ia em direção ao hospital ao lado…